sábado, 13 de fevereiro de 2016

perdas

meu maior defeito é não saber lidar com frustrações. não passei por muitas na minha vida, tudo acabava se encaixando e os episódios que poderiam ser mais traumáticos eu sempre blindei. nunca aprendi a trabalhar sobre as coisas ruins e simplesmente aceitar que elas acontecem mesmo, e não só com os outros. minha reação a frustrações é, inevitavelmente, encontrar um jeito de me culpar pelo que aconteceu. mesmo que não tenha nenhum sentido lógico, sempre acho um jeito de me covencer de que eu causei a situação. é um processo destrutivo e muitas vezes incontrolável.

daí que, pra mim, perdas beiram o insuportável. qualquer tipo delas. me angustia um elástico de cabelo destroçado por um gato, uma meia sem par, um lápis quebrado ao meio. mas claro que as perdas de coisas mais significativas pesam mais, podendo tumultuar minha cabeça por meses a fio.

to escrevendo isso porque, principalmente nos últimos dias, não consigo parar de pensar no iminente fim da faculdade. eu vejo os bixos sendo aprovados e comemorando e só consigo pensar em como eu entrei daquele mesmo jeito, trazendo no bolso uma vitória recém conquistada e uma liberdade de não ter que fazer mais grandes escolhas por algum tempo. uma sensação de "vida temporariamente resolvida". e vejo como pra mim esse período inteiro já acabou. cada vez menos matérias, cada vez mais preocupações reais. os que estão entrando já são quase novos demais pra mim, e eu não tenho mais pela frente esse mundo de bolha que é a universidade. esse catálogo de pessoas parecidas com você: mesma faixa etária, pensamentos divergentes mas ainda assim dentro de uma mesma esfera, poucas surpresas, tudo se encaixando em esteriótipos já bem conhecidos. várias páginas praticamente em branco. ninguém com muito compromisso com ninguém.

é difícil partir disso pra um mundo competitivo, onde trabalhar juntos realmente significa isso. ações com consequências reais e perigosas não só pra você. o término do aprendizado como principal atividade, passando a ser quase que um hobby e não mais uma obrigação.

e eu me vejo saindo daquela casa, indo pra longe das festas inconsequentes, da leveza de só reclamar sobre namorados e professores. me deparo com um potencial problema financeiro, com não ter certeza se vai ou nào ter como me virar no próximo mês, nos próximos anos. com o quanto vai ser difícil me mexer depois de 20 anos parada. com o jeito que eu me sinto incapaz de lutar por algo necessário e desejado. com como eu preciso ter tudo bem resolvido e pré determinado para não desmoronar.

porque é isso, me sinto desmoronando. não parece haver saída razoável, não há grandes coisas no mundo que me façam achar que viver nele valha a pena. não enquanto todos correm atrás de uma mesma coisa ao mesmo tempo. não vendo mil pessoas entrarem na faculdade todo ano pra todos se formarem e arranjarem um emprego e fazerem parte dessa maquininha em que ninguém tem finalidade própria, só estão andando na direção de um novo caminho. ninguém nunca para, mas ninguém chega a um destino. e eu, preguiçosa e desesperada como sempre fui, só queria saber que chegarei a algum lugar.