to morando nessa casa onde de três meses pra cá começou a dar merda atrás de merda. e merda em casa de 12 estudantes nunca é fácil de resolver, ninguém quer ter o trabalho e são coisas muito acumuladas devido a negligência de morador antigo, tipo infiltração. ninguém quer lidar porque as consequências são de longo prazo e não se fica em rep por grandes períodos de tempo. e pra consertar é grana e dor de cabeça altas.
então eu devo e vou sair daqui no máximo ao fim desse semestre. e futuramente, quem sabe, eu terei minha casa própria ou alugada. eu vou procurar por um lugar livre de problemas e vou cuidar bem melhor porque vai ser meu. vou resolver problemas assim que eles surgirem. mas também vou desembolsar um dinheiro. vou ter que gastar além do aluguel, terei de reservar uma parte do meu salário pra lidar com imprevistos se eu quiser evitar dívidas. se for pra viver essa vida, precisarei administrar meu dinheiro muito bem pra conseguir o que eu gostaria, que é não me afundar em débito e conseguir ter um mínimo de diversão que eu queira sem ter que contar moedinha.
eu vou ter que trabalhar pra isso. eu terei ambições e necessidades cada vez maiores, se eu não conseguir me segurar. eu serei vítima do mal da geração: trabalharei cada vez mais tempo pra suprimir gastos cada vez maiores e terei cada vez menos disponibilidade de fazer as coisas que eu quero. trabalharei cada vez mais para pagar coisas que terei cada vez menos tempo para usufruir. e qual o sentido disso? será que eu conseguiria me controlar e me dar por satisfeita com menos, ao invés de querer sempre mais?
eu adoro falar pra mim mesma que eu sou diferente, que eu não vou me deixar ser escrava do sistema, mas a gente sabe muito bem que não é fácil assim. eu sempre me sobrecarrego de tarefas. eu as executo até que feliz porque sinto que quando estou sendo útil e resolvendo um problema eu to ganhando experiências incríveis que me farão tão melhor na vida. só que isso é uma ilusão, porque o resultado nunca é o que eu esperava que fosse. não me causa o crescimento imaginado e não me traz vantagens na vida. eu não ganho nada além da satisfação de ver algo bem feito e feito por mim.
e eu não consigo encontrar a fonte direta dessa satisfação. não entendo por que eu me sinto tão feliz por ter realizado tarefas. é uma satisfação grande pra mim, sim. mas nào parece trazer retorno. e como eu não sei de onde vem, eu culpo de certa foma o sistema meritocrático no qual cresci. não penso que ninguém é pior ou preguiçoso por não tentar ou não fazer: não uso esse pensamento pra colocar ninguém pra baixo, apenas para cobrar mais de mim mesma e justificar essas necessidades que sinto.
apesar de viver nisso, eu acho terrível.
e qual meu escape? não sei bem, talvez embarcar na ideia do jacques de ir pra alguma sociedade sustentável. mas é tão difícil acreditar que vai ser diferente em algum lugar. quer dizer: diferente vai ser, sim, mas sou tão cética pra acreditar que mentes humanas organizadas em sociedades podem, sabe, funcionar bem. minha descrença é na própria cabeça das pessoas, nessa incapacidade inerente de grande parte delas em, sei lá, simplesmente respeitar um ao outro. ou simplesmente perceber que o que elas tão fazendo NÃO É respeitar um ao outro.
eu não vejo jeito nenhum de o mundo dar certo enquanto a gente estiver nele. eu confio cada vez menos na capacidade humana de cuidar e habitar esse planeta de um jeito coerente, porque eu tenho certeza que humanos não. são. coerentes. não adianta. e a gente vive nessa ilusão de que por ser racionais temos o direito de ter o "melhor", de fazer o que queremos. é uma prepotência gigantesca, e não, não acho que dá pra ir pra nenhum lugar bom (pra mim) desse jeito.
e é isso, é isso que me faz não querer estar aqui. não quero me foder pra caralho pra me encaixar em um negócio que vai me fazer sofrer mais ainda sempre que eu pensar nisso. e não vejo uma saída, prática ou não prática, pra fugir dessa coisa toda a não ser fingir que nada disso existe e continuar seguindo.