sexta-feira, 17 de novembro de 2017

13/10/17

estávamos todos em casa quando ouvimos um som desagradável vindo da rua, algo entre um urro e um gemido muito alto, quase não humano. pouco depois meu irmão chamou pedindo ajuda para fechar as janelas da casa. do lado de fora havia muitas pessoas, dentre curiosos, perdidos e autoridades tentando entender e controlar a situação. alguém orientava com um megafone para que as pessoas entrassem em casa e fechassem as janelas, em especial as que davam para a rua, e que não olhassem para fora. fizemos isso o mais rápido possível mas esquecemos a sacada da sala. corri até lá com meu irmão, tiramos as cadeiras do lado de fora e colocamos para dentro e começamos a fechar as portas de vidro. ventava muito. enquanto tentávamos fechar as cortinas, olhei acidentalmente para a rua. havia uma criatura, humanoide mas totalmente distorcida, pele laranja talvez coberta de pelos, a cabeça em um formato retangular, lembrando uma sacola de papel pardo amarrada no pescoço. enorme. quase 10 metros de altura. não sei se meu irmão também olhou. não havíamos terminado de fechar as cortinas mas chamei meu irmão e corri para o quarto. perguntei se ele viu algo. ele falou que não. eu disse que eu também.
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não havíamos entendido muito bem o que estava acontecendo. não tinha tv. não tinha internet. algumas pessoas continuavam nas ruas, algumas seguiam o dia a dia. nós não saíamos de casa além do necessário. nossas fontes de notícias eram as pessoas e autoridades que passavam nas ruas. havia dois deles pelo que soubéssemos. aparentemente vagavam pela cidade o dia todo. não pareciam pensar muito ou saber o que estavam fazendo. o segundo era menor que o primeiro. as pessoas haviam dado nomes para eles. não sabíamos o que queriam com os humanos; alguns diziam que sentiam nosso cheiro e iam atrás dos que agradassem, mas não sabíamos se eles os pegavam, se os usavam para se alimentar. não sabíamos se algum deles já havia encostado em algum humano.
estávamos na chácara. estava começando. o menor estava por perto. havia muitas pessoas no jardim da chácara, do lado de fora da casa. comerciantes, em geral. a casa estava fechada mas não trancada, algumas janelas impossíveis de fechar. dois comerciantes estavam na janela falando comigo enquanto eu tentava fechá-las desesperadamente. eles insistiam para que eu me alimentasse. trocasse de roupas, já que estava com a mesma do dia anterior. diziam que eu devia cuidar da minha saúde para que eles não sentissem meu odor. me ofereciam alimentos. eu gritava para que fossem embora e me deixassem em paz. estava preocupada em terminar de fechar as janelas e proteger minha mãe e meu irmão. eles não iam embora. eu gritava tanto que comecei a chorar. minha mãe apareceu e pediu para que eles fossem embora. eles foram. nos escondemos no quarto e a abracei. ela, doente como estava, tendo que passar por essa situação.
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estávamos na casa. o monstro maior estava por perto. eu fechava a janela do quarto do meu irmão me perguntando por que ela sempre estava aberta de novo. uma autoridade veio até mim e perguntou se eu estava comendo. ele me lembrou de que eu precisava estar saudável para doar plaquetas para minha mãe. eu era compatível e a imunidade dela estava muito baixa desde que havia engravidado pela última vez do meu irmão, uns 7 anos antes. falei que estava me alimentando e que em breve faria a doação. pedi desculpas para minha mãe. estávamos passando por muito estresse.
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algum tempo havia passado. as pessoas haviam se acostumado com a presença deles, que agora eram vários. nenhum tão grande quanto o primeiro. agora, havia algumas fêmeas. eram menores, no máximo 3 metros de altura, e bem mais humanóides. tinham cabelos. não eram disformes. algumas até pareciam interagir e entender onde estavam. mas não ficávamos perto. ainda era recomendado entrar em casa e fechar as janelas. estávamos no carro, chegando no apartamento. íamos atravessar a avenida quando vimos pessoas correndo vindo da direita. manobramos e corremos para a entrada do conjunto de apartamentos. havia um congestionamento. descemos do carro para correr até nosso bloco. eu estava fraca e desmaiei. minha mãe me pegou para me carregar. enquanto estava apagada, tive alucinações. sonhei que a criatura me alcançava e falava comigo. não me lembro do teor da conversa ou das visões, mas voltei sentindo compaixão. quando acordei ainda estava na entrada do condomínio. perguntei à minha mãe e ela disse que a fêmea havia simplesmente passado pela avenida, sem entrar no condomínio, e foi embora. ela parecia terais consciência. sorria. algumas pessoas andavam perto dela e tentavam conversar.
um amigo meu estava perto da gente ali na rua. conversamos sobre trivialidades, como se nada daquilo estivesse acontecendo - afinal, já fazia algum tempo que os monstros estavam entre nós e já fazia parte da nossa rotina. ele me disse que estava sendo o "preto" de alguém. algo como um doador de recursos de saúde para outro organismo. sempre que necessário, ele doava sangue e outras coisas para a pessoa dele. muitos dos mais saudáveis faziam isso pelos outros hoje em dia. eu só conseguia pensar no quão racista era a escolha do termo para designar a relação...
enquanto conversávamos, uma menina entrou no condomínio vinda da rua. ela tinha braços fortes e o rosto pálido, uma cabeça que parecia pequena devido ao corpo muito definido. usava roupas de cores brilhantes, algo meio futurista. veio até mim, parou na minha frente e me encarou por um período longo. não falou nada e foi embora.
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alguns, como nós, ainda se trancavam dentro de casa. outros só iam por outro caminho quando viam algum dos monstros pela rua. haviam surgido seitas que os veneravam. algumas religiões se adaptaram à eles como criaturas divinas ou sagradas. pessoas rezavam para eles. os seguiam. iam atrás deles. encostavam em seus pés para receber bênçãos. estava fora de controle.
ainda não sabíamos se eram perigosos ou não, não havíamos ouvido falar de mortes. havia um medo geral de que estar por perto deles causasse doenças após algum tempo. alguns diziam que eles só atacariam quando a pessoa interessasse. não estávamos aptos a tentar descobrir. eu queria falar com alguma autoridade para saber o que eles já haviam descoberto, mas de alguma forma parecia mais seguro continuar na ignorância.
havia cada vez mais deles. uns maiores, outros menores. o que parecia era que quanto maior, maior a distorção do corpo e menor o nível de consciência. os monstros menores até pareciam humanos.
e o número de pessoas que possuíam "pretos" só aumentava.