to pensando que talvez minha sensação de vazio e de inutilidade e de falta de identidade tenha a ver com o quanto eu me acho responsável por ajudar os outros.
não, eu nunca me fiz disponível pros meus amigos, eu nunca fui a pessoa que estaria lá sempre que necessário. mas não tanto por egoísmo quanto por exaustão. acho que às vezes eu to tão triste que não existem forças pra ouvir e confortar e aconselhar e lidar. e às vezes eu só não faço ideia de como poderia ajudar tal pessoa ou em tal situação. mas isso também no que se trata de ajuda emocional, no qual eu sempre tive um bloqueio -- em ajudas práticas eu sempre sou a primeira a me oferecer.
aí talvez eu tenha criado uma personalidade baseada em apoiar outra(s) pessoa(s). em geral, uma de cada vez por períodos grandes ou curtos. eu me moldo aos gostos e crenças, eu ganho confiança e simpatia e quando me sinto segura vou moldando aos poucos, contornando o que acho que deve ser mudado, reparando pequenos problemas que encontro e transformando aquela vida em uma que me pareça ser melhor pra própria pessoa e pras que estão ao redor dela. eu me infiltro nos pequenos mundos pra torná-los melhores fazendo pequenas correções de um jeito que ninguém se sinta agredido. eu mudo a minha zona de conforto pra que ninguém tenha que sair da sua e consiga melhorar dentro dela.
eu sou um parasitinha que quer mudar as coisas uma por uma sem grandes conflitos. e eu espero estar fazendo algo bom dentro do possível.
mas no meio disso eu esqueço um pouco de existir por mim, de manter alguma autenticidade. eu sou tão mutável pelos outros que às vezes esqueço de ser eu. e isso me traz um vazio existencial porque frequentemente parece que não tem nada aqui dentro, que eu não vivo por mim.
mas ao mesmo tempo eu vou juntando meus pedacinhos com o que aprendo com os outros. pode nem sempre haver muita autenticidade pessoal, mas mantenho meus princípios bem montados e coerentes, reconstruindo sempre que necessário.
minhas relações são, portanto, muito baseadas em trocas. mesmo quando ninguém me oferece nada, dá pra absorver por observação.
mas a questão principal disso tudo é: como eu vou estar com alguém que já é completo? como vou me relacionar com uma pessoa que aprendeu tudo que poderia aprender? e quando eu estiver esgotada, e quando minha "missão" for cumprida? eu tenho tanta necessidade de ser útil que, quando não me sinto mais assim, me parece que a relação acabou. que não tem mais pra onde ir. eu não vejo mais sentido, eu fico insatisfeita e me sinto um pedaço de nada. eu só consigo me sentir amada enquanto me sinto necessária.
e quando isso acontecer? como eu vou fazer pra conseguir continuar?