quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

sobre querer ser importante

vou contar um ciclo que foi muito presente durante minha vida toda. eu costumava ser bem quieta e reservada, só me abria e me sentia um pouco mais à vontade nos meus grupinhos seletos e pequenos. também sempre me dei bem em todas as matérias e essa combinação inevitavelmente fazia com que eu tivesse fama constante de nerd. por causa disso, sempre que eu tentava agir de um jeito mais extrovertido saía forçado e eu sentia que tava sendo awkward demais e que claramente tava fazendo algo errado. daí eu só me arrependia e parava, com minha espontaneidade reprimida por mim mesma, sempre achando que eu nunca seria aceita e nunca faria parte daqueles grupos de pessoas tão grandes e que eram amigos de tanta gente mais.

isso ainda tá bem incrustado em mim, mesmo que eu já tenha melhorado bastante minha confiança e já consiga me deixar fazer algumas das coisas que eu quero fazer. ainda me sinto um tanto imbecil quando por impulso ou por álcool começo a me destacar e tacar o foda-se em algum evento social. mas pelo menos agora eu sei que tenho a capacidade de conversar com alguém pela primeira vez sem o desespero de sentir que eu não sou nem um pouco interessante e que não tenho nada a acrescentar na conversa. consigo até que escapar bem de silêncios constrangedores sem me sentir constrangida e achar engraçadinhas as piadas e brincadeiras que eu mesma faço. acho, sim, que tenho uma personalidade bacaninha e que se não gostam de mim não é realmente culpa minha. as inseguranças que rolam hoje em dia se baseiam em não ter um grupo de amigos maior ou mais diversificado.

só que mesmo acreditando no meu potencial de fazer amizades, ou de pelo menos conversar com pessoas que fazem parte do meu dia a dia mas não são necessariamente amigos, eu ainda não faço isso. acontece que eu to no mesmo ambiente da faculdade há quatro anos e nunca falei muito com ninguém além dos meus amigos do meu ano e das pessoas que moram comigo. daí parece esquisito demais eu começar a fazer parte de outros grupos que tavam lá ao meu redor todo dia e eu aparentemente nunca dei a mínima. não sei como começar de novo relações que eu já viciei em serem de certo jeito. acho que agora é essa barreira que eu tenho que transpassar.

de qualquer jeito, eu percebi também que minha vontade nunca foi exatamente só me encaixar. acho que eu sempre quis me destacar nos meios dos quais eu não participava. eu não queria ser mais uma, queria ser diferente do que todos já eram. queria trazer algo novo e ser a única a fazer isso. e isso sempre fez eu me sentir egocêntrica. eu argumentava sozinha que tinha a ver com eu não gostar realmente do jeito que aquelas pessoas eram e querer entrar no mundo delas sem me alinhar, e não com querer ser o centro das atenções. mas é mentira. porque quando surgia alguém parecido comigo, que tinha "autenticidades" parecidas com as minhas, eu não começava automaticamente a gostar da pessoa. ia mais pra uma raivinha por ela estar fazendo o mesmo que eu.

no fim, meu desejo de ser diferente pra ser aceita não passava de uma tentativa forçada de ser especial. e é algo que mexe comigo até hoje. porque é, sim, muito legal pensar que só você é capaz de fazer alguém sentir tal coisa ou ter tal reação. não só em relações românticas. eu mesma me encarrego de dar pequenos títulos exclusivos pra todas as pessoas que gosto dentro da minha cabeça: tenho aquela pessoa que é ótima em trocadilhos, aquela que adoro conversar com sobre filmes, a pessoa que indica músicas, a que eu poderia ouvir falar por horas. então eu quero ser a ganhadora de pequeninos prêmios na vida de todo mundo também, oras.

mas o importante é que eu aprendi a deixar que as coisas que me fazem única saiam involuntariamente. não faz sentido me esforçar pra fazer de mim alguém interessante. não preciso ser melhor do que alguém pra me destacar. todos nós podemos ter nossos espaços sem que ninguém precise ficar por cima de ninguém. podemos, sim, ser especiais sem ser únicos.

não sei como concluir porque nem sei por que comecei a escrever esse texto de auto-ajuda, sei lá, devo estar em um dia otimista talvez. mas é isso: acho que gosto muito mais de mim hoje do que eu gostava uns cinco anos atrás. sei lá, quanto mais eu deixo transparecer sem medinhos as coisas que são naturalmente minhas, melhor eu aceito a mim mesma e aprendo a controlar o que eu não curto. sabe, a gente não melhora se a gente não se der oportunidade e/ou se ficar pra sempre mirando naquilo/naqueles que gostaríamos de ser.