quinta-feira, 23 de julho de 2015

antiamor

teve um post no spotted esses dias de algum anônimo expressando em letras garrafais que estava apaixonado, de um jeito que não dava pra ter certeza se aquele grito virtual era de felicidade ou um pedido de socorro. de qualquer jeito, achei engraçado que deu pra separar facilmente os entusiastas do amor, que curtiram o post, dos antipartidários, que jogaram vários comentários no estilo de "bate com a cabeça bem forte na parede que resolve", ou "isso é falta de bebida", ou "hahahaha se fodeu". e eu acho tão ruim perceber que, pra grande parte das pessoas, se envolver em um relacionamento mais profundo é simplesmente algo que vai fazer mal e que não vale a pena.

eu poderia questionar a forma como as pessoas tão ficando cada vez mais imediatistas e egocêntricas e deixando de empatizar com os outros seres humanos ao seu redor, mas acabei de ver um filme de 20 anos atrás em que não era muito diferente. e imagino que também não devia ser mais 20 anos atrás, e mais 20, e mais 20. na real não sei de nada porque eu não tava lá, mas acho que talvez isso tenha mais a ver com a nossa natureza do que com a época em que vivemos. talvez a gente realmente seja programado pra ser individualista e procurar o melhor pra si mesmo. pode ser que no meio disso acabem se desenvolvendo empatias que são necessárias pura e totalmente para a sobrevivência do indivíduo ou da espécie. porque vai, em geral as pessoas têm vontade de ficar umas com as outras porque elas se fazem bem, e querer se sentir bem é natural (em grande parte dos casos), mas também é uma vontade "egoísta", querendo ou não. ou o que elas têm é vontade de fazer sexo, e sexo a princípio é um negócio que surgiu mais pra reprodução do que pra prazer, e mesmo que no ser humano atual o prazer seja, em geral, algo de importância bem maior, a raiz é outra. então é, acho que a gente funciona bem mais pra seguir a natureza do que qualquer outra coisa, e aí a gente fica botando máscaras em cima de tudo que a gente faz pra tentar se achar racional mas no fim das contas o que a gente tá fazendo é só deixar a legacia dos humanos, o que pra nós como indivíduos não faz porra de diferença nenhuma

eu me desviei do assunto

a questão é que sendo ou não racionais, a gente gosta de outros humanos em maior ou menor intensidade e, no fim, acho que também é natural a gente querer ter alguém por perto, ter quem nos cuide emocionalmente e que compartilhe das nossas angústias e felicidades, enfim. mas aparentemente se envolver tá sendo um sofrimento, porque aparentemente ninguém mais é capaz de se importar sem fazer cagada. todo mundo fica só colecionando decepções amorosas e propagando essa cadeia de descaso, se sentindo eternamente desesperançoso e cético quanto ao bem que outro alguém pode fazer. claro que uma parte muito legal é que a galera acaba se apegando mais aos amigos (parece), até porque ficar sem companhia at all não é algo que costuma fazer bem, mas sei lá, qual a necessidade de fazer essa propaganda toda conta um sentimento que, poxa vida, faz bem?

sei lá, eu acho que eu fui um tanto privilegiada por não ter trombado com gente que me fez mal na vida. dá pra dizer seguramente que eu gostei de duas pessoas, e nenhuma delas me causou sofrimento nem me decepcionou. sei lá, espero também não ter sido a pessoa que fez isso. mas me parece tão difícil que todos os relacionamentos de alguém precisem terminar de forma trágica, com um dos dois fazendo uma cuzisse bem grande e gerando ódio, ao ponto em que a pessoa passa a bradar que amor só serve pra fazer sofrer e que não vale a pena se entregar pra algo assim.

eu falho bastante nesse aspecto ainda, mas não é preciso um nível de empatia muito grande pra não fazer alguém sofrer desse jeito. pra não ser um babaca na relação. não é tão difícil você ser sincero e evitar um sofrimento maior, não custa nada se sacrificar um pouquinho em prol do outro às vezes. e não custa nada retribuir quando alguém faz isso por você. não tem mesmo como um relacionamento funcionar se todos os envolvidos não estiverem dispostos a abrir pequenas concessões e trabalhar juntos naquilo. sim, pode dar trabalho, mas sei lá, se o trabalho vier dos dois lados pode valer a pena pra viver algo tão diferente e conhecer alguém de um jeito que nunca seria possível de outra forma. claro que isso sou eu falando e que não vale pra todo o resto do mundo, mas é tão legal estar tão próximo de alguém... e eu penso que se tanta gente ainda continua tentando, é porque ainda acha que pode dar certo. aí problema é que nem sempre isso vem acompanhado de disposição, seja por ambas ou por uma das partes.

e o mais foda é que esse negócio de "perder as esperanças" de encontrar alguém tão disposto quanto você te faz entrar em um nível de foda-se em que você não se importa mais em tentar ser bacana, e talvez essa sua falta de preocupação recém-obtida acabe fazendo alguém sofrer. talvez esse alguém fosse uma pessoa que tava a fim de fazer diferente, que ainda não tinha desacreditado nessa historinha romântica. e talvez você acabe sendo uma das desilusões que vai fazer com que essa pessoa também se torne uma desacreditada, e tudo vira uma reação em cadeira aumentando cada vez mais a quantidade de gente indisposta do mundo.

sei lá. só espero nunca ter sido essa fonte de frustração pra alguém, e que essas perdas de esperança não sejam definitivas. ou que fiquem mesmo todos desacompanhados, é claro, se for o que quiserem -- mas porque querem, e não por amar ser uma coisa ruim.